Segunda-feira

Março 8, 2010

Muito tempo sem dar as caras por aqui. Então coloquei um texto que essa segunda-feira me fez lembrar:

Domingo foi um dia nulo. Não coloquei meus pés para fora de casa. A água escorria aos montes do céu, e nada do tempo firmar. Detesto molhar o corpo vestido, e assim, não saí da proteção de minha casa. Pra mim, dia de verdade, só quando damos uma caminhada, quando sentimos a brisa do mar a tocar o nosso rosto. Daí sei porque nunca poderia ser verdadeiramente feliz onde morei, na serra – cidade de Pedro –, ali faltava a porta de saída da terra, a porta que traz a brisa libertadora – essencial para os claustrofóbicos-terrestres.

O vento passou o dia inteiro a cantar lamúrias de tristezas em meus ouvidos. E fiquei durante horas lendo, conversando ou vendo tv, esperando o céu mudar de humor: o que aconteceu apenas nas primeiras horas de luz de segunda-feira – como que por um castigo divino. A praia, antes chorosa, se encheu de sorrisos, dela própria e daqueles sortudos que aproveitam as férias.
Segunda-feira de sol, quase um pecado ir trabalhar.

Ainda somos humanos

Janeiro 20, 2010

Com tragédias nos reconstruímos, nos reinventamos. Com o sofrimento vem a superação. E a esperança, por muitos sentenciada de maldita – por nos prender ao sofrimento –, é a motivação para persistir: sem ela estaríamos fadados ao torpor, estaríamos apaziguados com a metade; diante da guerra e da epidemia, não existiria a luta pela salvação e pela vida, restaria apenas a espera fustigante pela ruína.

E é na ruína que nos tornamos verdadeiramente seres sociais. Da ruína do Haiti vemos a mobilização mundial que envolve França, Islândia, Alemanha, Bélgica, Espanha, Canadá, China e outros países, na tentativa de salvar aquele povo sofrido. A pobreza daquele país está arraigada em sua história. Lembro-me quando a seleção brasileira de futebol jogou por lá. Era nítida a pobreza por onde passaram os blindados da ONU com os jogadores brasileiros. Nítida também era a euforia dos haitianos. O Jogo da Paz foi realizado em 2004 para chamar a atenção ao país mais pobre das Américas. Na época o Brasil assumia o comando da força de paz da ONU no Haiti.

Apesar dos habitantes demonstrarem alegria, o país tem história ingrata: o Haiti é ex-colônia francesa e foi formado a mais de 200 anos por escravos; passou por um longo período de ditadura: nas décadas de 1960, 70 e 80, Papa Doc, sucedido pela sua cria, Baby Doc, ficou no poder enquanto levava o país à débâcle e assassinava seus opositores. Nos últimos anos três furacões passaram por lá, mas nenhum desastre natural causou tantos danos como o terremoto do dia 12: ao todo, e infelizmente por enquanto, são 75 mil mortos e um sem número de desabrigados.

Cabe aos países que têm condições, que normalmente ficam entretidos em guerras – “justas” (ou não), como disse Obama, o Nobel da Paz –, ajudarem o Haiti. E é com imensa satisfação que vejo essa mobilização: países deixando de pensar economicamente por um momento para socorrer. Com isso, em meio ao caos e à destruição, surgem cenas que me fazem acreditar que ainda temos humanidade; cenas que me alimentam com um pouco de esperança de que seremos mais justos e solidários; esperança de que alguns países beligerantes quase por natureza, deixem as armas de lado e proponham união. Piegas, eu sei, mas como eu disse, a esperança nos faz prosseguir.

A ajuda promove cenas como estas:

E pra quem quiser ajudar, alguns jeitos de fazer uma doação:

Embaixada da República do Haiti

Banco do Brasil

Agência: 1606-3

Conta: 91000-7

CNPJ: 041702370001-71

 

Viva Rio

Banco do Brasil

Agência: 1769-8

Conta: 5113-6

CNPJ: 003439410001-28

 

Comitê Internacional da Cruz Vermelha

HSBC

Agência: 1276

Conta: 14526-84

CNPJ: 043596880001-51

 

ActionAid

Para quem tem interesse em colaborar, a doação pode ser feita de duas maneiras. Pelo telefone 0300 789 8525, das 9h às 18h, de segunda a sexta-feira. E também pelo site http://www.ajudeohaiti.org.br. A doação mínima é de R$ 10.

Reforma à base de arruda

Janeiro 12, 2010

Vamos levar galhos, ramos, arbustos e florestas de arruda a Brasília para espantar os maus espíritos (políticos). Quem sabe assim conseguiremos fazer com que aqueles escroques larguem o panetone, quer dizer, o osso. Há gerações estão sugando nosso patrimônio. O personagem da moda é o José, com o nome da planta que devia extinguir tudo o que ele representa.

Mas a fama dele não vem de agora: em 2001, quando ainda estava no PSDB, renunciou ao cargo de senador, pois o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar iria cassar seu mandato, junto com o ex-coronel ACM (“ex” porque não existem coronéis no além), pela violação do painel de votação do senado. Na época, Arruda era figura importante do governo FHC no bordel (senado). Ele voltou à ativa em 2006, quando foi eleito governador do DF pela coligação “Amor por Brasília” – tão espirituosos esses políticos.

Em 2009, apareceu com tudo e atraiu microfones, flashes e câmeras escondidas. Pegou uma graninha, colocou em um envelope pardo – teve classe e não guardou nada nas meias ou cueca – e acabou sendo mal interpretado. O dinheiro era destinado ao altruísmo, iria ser investido na alimentação natalina dos pobres famintos que ajudaram a coloca-lo no poder. Ele é um cara virtuoso e deve gratidão às 663.364 (50,38% dos votos) pessoas que nele votaram. Mas alguns loucos acabaram por agredi-lo com declarações absurdas de que ele estaria aceitando propina. Não, Arruda não é mais um nome sujo no mensalão – termo cunhado pelo ilustríssimo Roberto Jefferson –, mas também não guarda rancor de quem o acusou, e já perdoou àqueles que produziram tais falácias (segue o vídeo):

Um discurso incoerente, cínico e com expressões faciais debochadas. Os políticos de hoje deveriam fazer uma escola de teatro para melhorar o desempenho. Talvez ficaríamos menos ofendidos. E aqueles que não se calam, ou são agredidos, ou tirados da frente à força. Os manifestantes de Brasília foram varridos pela tropa de choque da polícia militar, por ordem do próprio governador. O Estado, para manutenção da ordem, possui o monopólio do uso da força, mas faze-lo contra os direitos do cidadão, é praticar violência. A Constituição garante o direito de reunião pacífica e a livre manifestação do pensamento. Nossa Carta Magna foi respeitada na foto abaixo? O registro foi feito em 09/12/09; o movimento Fora Arruda foi varrido pela polícia.

Contra os manifestantes que querem a cassação de Arruda, a resposta foi dada com balas de borracha, cassetetes e spray de pimenta (o que me lembra uma tarde no Maracanã, mas deixa isso pra lá), já ontem, além dos “agressores” do governador, foram às ruas manifestantes que o apoiavam; e enquanto os primeiros foram removidos a força pela polícia, os pró-panetones (que já estão reivindicando chocotones) chegaram em ônibus fretados e tiveram seu direito de reunião pacífica respeitado. Então pera aí? Quem é pró-governo pode falar e quem é contra deve se calar? Afaste de nós esse cálice, caríssimo Arruda. Esse é um caso gravíssimo que tenta contra a democracia. E o curioso é que o ex-partido do sujeito é o Democratas, o putrefato partido outrora chamado de PFL. Só que a história fica mais podre a cada capítulo: “Servidor do Governo do Distrito Federal (GDF) denunciou nesta segunda-feira (11) que os funcionários do GDF estão sendo ameaçados de exoneração caso não participem de manifestações a favor do governador José Roberto Arruda” – fonte: globo.com.

E a cara de pau não tem limites. “O deputado Alírio Neto (PPS), ex-secretário do governador José Roberto Arruda (sem partido), foi eleito, por quatro votos a um, presidente da CPI da Corrupção da Câmara Legislativa do Distrito Federal. O relator será Raimundo Ribeiro (PSDB), também ex-secretário de Arruda e corregedor temporário da Casa” – fonte:globo.com. Mais uma CPI vem aí, e provavelmente, mais um ladrão ficará solto por aí. Nossa constituição de 1988 tem muitas falhas, e a CPI é uma delas. Esta é uma das formas do legislativo fiscalizar o executivo; e tem um poder meramente investigativo, porém, é ela que irá levar ou não o caso ao Ministério Público. Quando ladrões, com seus longos rabos presos, investigam outros ladrões, é muito provável que tudo acabe em… Prefiro nem terminar a clichê frase que se repete CPI após CPI. Deve existir uma reforma política mais ampla com leis rígidas para a imunidade parlamentar (que na minha opinião deveria ser transformada na simples inviolabilidade a que os vereadores tem direito), que acaba se tornando impunidade. O judiciário deve assumir um papel peremptório para punir os ladrões com colarinho branco engomado.

Movimento Fora Arruda: http://www.foraarruda.com/
Plataforma de Reforma do Sistema Político Brasileiro: http://www.reformapolitica.org.br/

Acumulam-se críticas ao posicionamento da diplomacia brasileira. “É um absurdo recebermos um ditador”, “não podemos negociar com um presidente eleito através de fraudes”, “esse iraniano não respeita os direitos de liberdade de seus cidadãos”, e finalmente, “esse idiota nega a trágica história dos judeus”. Sim, esse presidente é corrupto – coisa que conhecemos bem: estamos em 75° no índice de corrupção da Transparência Internacional; o Irã está em 168º –, é autoritário, e um tremendo imoral (pra não dizer filh* da put*) por ter negado a existência do Holocausto. Mas podemos citar alguns chefes de Estado que têm um pouquinho de Ahmadinejad no sangue, mas não são vistos como párias.

O presidente Hu Jintao promove forte censura na China, que se expande até a este texto, já que a internet por lá não tem quase nada de internet. Na terra de Jintao também não há liberdade de expressão e os direitos trabalhistas parecem ser medievais, mas todos os países adoram aumentar o fluxo de capital com o descomunal mercado chinês. O ignóbil ex-presidente americano, Bush Jr., manteve-se no poder através de eleições duvidosas, mas todos continuavam negociando com o Tio Sam. Já o Silvio “Vida Loka” Berlusconi é dono de três das sete emissoras de sinais abertos na Itália; além disso, o premiê já disse que Benito Mussolini nunca matou ninguém, apenas “mandava as pessoas de férias para o exílio”. Todos os países citados têm mercados importantes, e por isso, esses defeitos passaram e passam incólumes.

Receber o maluco do presidente Ahmsadksdf, é uma posição diplomática ambiciosa, e condizente com a história da política internacional brasileira: não viramos as costas para quem nunca nos fez mal. Ao dialogar com um “inimigo” do mundo ocidental, o Brasil tenta assumir uma posição avançada na política internacional, tomando as rédeas das negociações com uma nação-problema, que fica apenas atrás da Coréia do Norte. E esta, é um exemplo do porquê é necessário dialogar com os “inimigos” do ocidente, pois o isolamento dos mesmos resulta em mais problemas, que por sua vez podem eclodir em uma desnecessária guerra (redundância). Além disso, claro, negociar com Ahmsdiuah tem um objetivo econômico.

O Brasil adota uma posição que não segue automaticamente os EUA. É um questionamento à representação da posição dos EUA como uma verdade absoluta. Neste caso trata-se de algo bastante coerente, já que os EUA, o líder da pressão contra Irã, é possuidor da maior reserva de armas nucleares. E vale lembrar o passado recente: Washington invadiu o Iraque por que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa (que nunca foram encontradas); e, voltando um pouco mais no tempo, vemos que os Estados Unidos apoiaram ostensivamente Saddam na guerra contra o Irã – que teve cerca de 1,5 milhão de mortos. É exatamente antes desta guerra que vem a inimizade entre Washington e Teerã: desde 1979, com a Revolução dos Aiatolás, quando a embaixada americana foi invadida e reféns foram mantidos por 14 meses. Portanto, independente de qualquer coisa, é preciso prestar atenção e não seguir o país de Barack Obama pra onde ele for. Eles agem através das necessidades deles, nós devemos fazê-lo através das nossas.

China e Rússia, que antes apoiavam Teerã, agora, certamente pressionados por Israel e Estados Unidos, também entraram em cena: os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, França, Reino Unido, China e Rússia), com a ajuda da Alemanha, exigirão explicações do Irã sobre seu projeto nuclear. O país será convocado oficialmente e terá que abrir as portas, mais uma vez, para a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Trata-se do Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares – que entrou em vigor em 1970 – sendo posto em prática. Mas analisemos a situação internacional dos armamentos nucleares.

Os seguintes países possuem armas nucleares: EUA, Reino Unido, Rússia, China e França. Percebeu que são os mesmos do Conselho de Segurança? Pois é… Aí me vem à cabeça o saudoso barbudo Enéas, que defendia que um país só era respeitado se tivesse um poder bélico considerável, e claro, defendia o projeto da bomba atômica verde e amarela. Mas retomemos o raciocínio. Além dos já citados, mais quatro países detêm a tecnologia de armas nucleares: Índia, Paquistão, Israel (que nega possuí-las) e Coréia do Norte. O curioso é que esses países não fazem parte do Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares – e Israel possui total respaldo dos EUA. A partir deste cenário é possível entender porque o Irã se revolta com as fiscalizações da AIEA e já até tentou burlá-las. Afinal, porque os países do Conselho de Segurança não são submetidos à fiscalização? Os países do ocidente defendem a democracia, até mesmo intervêm em alguns países com essa desculpa, e não praticam isso de maneira global. A política interna deve ser democrata mas a externa gerida por uma minoria?

Vale refletir sobre toda a história da política internacional para entender o posicionamento da diplomacia brasileira. É Claro que podem existir erros, afinal a nossa diplomacia nunca esteve tão ativa. E quanto mais se faz, mais é possível cometer equívocos.

Lula e Celso Amorim, na minha opinião, só cometeram um erro (que já aconteceu na relação com outros países): deveriam ter pontuado com mais afinco a posição brasileira da discórdia. Afinal, o cara se mostrou anti-semita e homofóbico, e nós brasileiros, gostamos de sempre falar que em nosso país, todos, independente da cor da pele, da crença religiosa e da opção sexual, vivemos em paz e harmonia. Era também preciso defender que Teerã apresentasse um programa nuclear aberto e sem tentativas de enrolar a AIEA, e não simplesmente defender o direito deles. Seria uma atitude mais harmônica com a vontade do Brasil de conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil deve sim buscar novos parceiros comerciais e dialogar sempre, mesmo que seja com países como o Irã. O diálogo leva ao entendimento, e os novos parceiros comerciais trazem dinheiro. São nossas necessidades que devem ser levadas em conta, e não a de países como os EUA.

Outra coisa: é bom mencionar que as duas nações citadas como problemáticas, Coréia do Norte e Irã, têm em seus passados intervenções ocidentais que prejudicaram seu desenvolvimento como Estados democratas.

Depois daqui

Outubro 6, 2009

Texto sem sentido. Texto sem origem nem destino.

Triste ver um corpo se esvaziar de vida. A fala vai ficando mansa – mas sem o intuito de –, os movimentos pausados, e os olhos, os olhos são a parte do corpo que mais denunciam a chegada do termo; eles te miram sem de certo vê-lo, carregam uma expressão não mais de medo, uma expressão serena, de paz quase profunda, sem qualquer preocupação ou ocupação, beirando o vazio. Aquele corpo, antes cheio de calor, movimento e cor, não será mais o que antes representara, terá uma definição diferente, algo mais parecido com um peso de papel perecível. Torna-se apenas mais uma medida de massa que por inferência da gravidade, mantém-se no chão da Terra, e em breve, muito em breve, tornar-se-á alimento da terra, transformar-se-á em adubo, podendo ser comparado com um prato de feijão ou um punhado de merda.

O corpo é transitório. Uma hospedagem a qual nos apegamos, mas em que estamos apenas de passagem. O corpo é uma fase. Nunca a expressão um “estado de espírito” poderá ter aplicação mais justa. E ele, o seu, digamos, espírito, abandonará esse estado temporário para seguir seu curso em direção a uma energia maior. Estaria Platão certo? Somos um pedacinho do chamado Deus e um dia nos uniremos à energia mater? Ele falava em sabedoria. Eu falo em fim, em inicio, em inevitabilidade.

Tenho fé. Mas considero crenças como a da reencarnação apenas uma teoria esperançosa. Um pensamento prendedor que, como a gravidade, visa nos manter com os pés na Terra. Mas o espírito flutuará. Não terá pés. Passará não para o próximo, pois essa palavra remete em níveis, levels como a próxima fase de um videogame – pensamento humano que molda nossas criações, como o citado videogame –, mas para um outro estágio. E não acredito que voltaremos. Pensar nisso é imaginar uma entidade com nossa personalidade, como se tivéssemos um cérebro espiritual, um nome espiritual e um lar, também espiritual. Pura esperança. Mas entendo. Afinal pensar no fim, pensar no nada, é inconcebível para uma mente humana. Esta, que não imagina um mundo sem se encaixar no mesmo.

Texto sem sentido. Texto sem origem nem destino.

2016: patriotismo

Outubro 3, 2009

Parabéns para o Brasil. Parabéns para o Rio de Janeiro. Vi uma cena bonita ontem: enquanto sacolejava no ônibus rumo ao trabalho, recebi a ligação de minha querida mãe que entusiasmada me contou da vitória do Rio, e, ao mesmo tempo em que falava com ela, percebi que diversos outros celulares se manifestaram. Cheguei a contar, consegui ver oito pessoas falando ao telefone, que durante a conversa abriam um largo sorriso de satisfação. Após desligarem, conversavam com a pessoa mais próxima. Logo o ônibus todo estava contagiado, o burburinho cresceu e se transformou em fuzuê. Um passageiro um tanto efusivo, em um momento de sincera euforia, levantou de seu assento proferindo gritos de “viva o Brasil”.

Fico feliz com esse sentimento que nos contagia. Mas é um sentimento que surge apenas quando competimos com alguém de fora: futebol contra a Argentina, vôlei contra Cuba ou a disputa para sediar as Olimpíadas contra Espanha, Japão e Estados Unidos. Quando estamos aqui dentro, vivendo um dia após o outro, somos brasileiros, mas não tanto quanto deveríamos ser. Não estou pedindo que gritemos diariamente ao amanhecer um “viva o Brasil”, mas que cuidemos da nossa pátria amada.

Agora, além de torcermos para que nossos políticos, que tem a ganância como maior “virtude”, não desviem a grana destinada para melhorias na infra-estrutura do Rio para seus gigantescos e esfomeados bolsos, temos que exigir contas abertas, orçamentos transparentes para todos os cidadãos, afinal, para quem não lembra ou não sabe, o orçamento do Pan estourou, e não foi um pouquinho, quadruplicou. Incompetência ou corrupção? Acredito que foram os dois. Os resultados foram obras mal pensadas, dólares em paraísos fiscais, e pizzas, muitas pizzas.

A ministra Dilma Rousseff disse que uma comissão especial dentro da Controladoria Geral da União (CGU), será criada para fiscalizar e dar transparência à aplicação de recursos gastos nas Olimpíadas. Tomara. E que tudo fique explicado para nós em um site que todos possam acessar. Afinal a internet é a arma mais eficiente de troca de informação.

Ganhamos o direito de sediar as Olimpíadas, e não temos que parar por aí, agora precisamos mostrar para o mundo que somos um país que merece respeito, um país que pode organizar um evento mundial. Temos que fazer bonito e jus à nossa vitória. Esta, que na minha opinião, é muito mais uma tendência mundial: a tendência à primeira vez. Primeiro presidente negro da nação mais influente do mundo, primeira Copa na África, e agora, as primeiras Olimpíadas na América do Sul (e é por essa tendência que o Brasil terá duas candidatas a presidência que terão chances claras, Dilma e Marina – mas isso é outro assunto). Somos os primeiros, carregamos responsabilidade. A primeira vez é inesquecível, como tão bem eternizou Olivetto, e como disse Roberto da Matta, tem um grande significado para a vida, “toda primeira vez sinaliza um empacotamento da vida, toda estreia assinala a possibilidade de (re)fazer uma história que, por ter início, meio e fim, aniquila um pouco a indiferença de um mundo sabiamente contínuo e, por isso mesmo, indiferente ao pipocar de vida e de paixão que eventualmente surge em seu seio”.

Sejamos patriotas sim, mas de maneira justa. Sejamos patriotas na saúde e na doença, sejamos patriotas no dia-a-dia. Participemos desta primeira vez. E que nosso sentimento não passe da euforia, por conta da recente vitória, para a crítica, se algo der errado. Cobremos agora, que tudo dará certo e representaremos bem a primeira vez do Rio, do Brasil e da América do Sul.

No Dia Mundial Sem Carro devemos sair de casa sem transporte público. “Não custa nada”, dizem eles. Com chuva, insegurança nos ônibus (falando nisso: ontem um ônibus foi seqüestrado, os passageiros foram assaltados e o veículo foi queimado, no complexo da Maré) e um metrô de mentira, devo ir a pé com guarda-chuva? Bicicleta e capa de chuva? Patinete e um sombreiro?“Pegue um táxi”, já escutei. Ora, mas táxi é carro.

Proibiram até mesmo a utilização dos estacionamentos de prédios públicos e de inúmeras ruas da cidade, diminuíram o limite de velocidade para 30km/h em diversas ruas de Copacabana para, segundo as autoridades, “proporcionar uma relação amigável entre motoristas, ciclistas e pedestres”. Até o prefeito Eduardo Paes, que bonitinho, foi trabalhar de bicicleta. Engraçado. O governo dá a maior força para medidas sonhadoras, mas não aplica no dia-a-dia o sonho de um mundo com menos carros. Custa muito combater a máfia dos ônibus? Custa muito pensar um sistema de linhas de ônibus eficiente? Custa muito investir em linhas férreas? Custar, eu sei que custa. Mas o “muito” sai barato, é um “muito” justificável e sensato em longo prazo.

O problema é o prazo longo. Afinal, começar uma obra e deixar para outro político cortar a faixa vermelha de inauguração, é coisa de político maluco. Político que quer o bem da sociedade? Insano!

É verdade, não pensei por esse lado. O jeito então é manter essa merda toda e jogar um bom-ar de esperança pra esconder o fedor.
Que beleza! O Dia Mundial Sem Carro… Aposto que todos os políticos apóiam!